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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Interview Noise Patricia de Nicolai

Eu já queria conversar com a perfumista Patricia de Nicolai há muito tempo. Sempre que a encontrava em eventos de perfumes, Patricia estava demasiado ocupada e de certa forma incontactável. Mas não desesperei e, finalmente, tive sorte. Estou muito grato ao departamento de imprensa da Parfums de Nicolai pela sua ajuda na organização da minha entrevista com Patricia!
Serguey Borisov: A sua marca de perfumes foi fundada no final dos anos 1980 quando a perfumaria de nicho não era tão popular como agora. Você, Annick Goutal e L'Artisan Parfumeur deram inicio aos perfumes de nicho! Malle, Lutens e outros se juntaram à cena mais tarde. Obrigado por isso!
Poderia me dizer por favor quais os princípios essenciais da criação de perfumes e as regras de negócio da sua companhia?

Patricia de Nicolai: Cada casa de perfumes de nicho tem sua forma de trabalhar, sua própria história, background e conceito. No que me diz respeito, sempre quisemos ser uma casa muito Parisiense, refinada e elegante. Entre a família dos perfumes de nicho nós somos muito singulares: nós fazemos mesmo tudo! Desde comprar as matérias primas, à criação de perfumes no laboratório, ao processamento na nossa fábrica que se situa no 'vale cosmético' francês, e, finalmente, à venda dos produtos nas nossas próprias boutiques.
 
Serguey Borisov: Calice Becker da Givaudan me contou acerca da discriminação das mulheres na perfumaria. Também tem essa experiência?

Patricia de Nicolai: Sim, de fato! Eu venho da família Guerlain, uma família que tem vivido no mundo dos perfumes há décadas. Contudo, não foi uma opção óbvia para a minha familia acreditar que eu poderia trabalhar como perfumista. Eu comecei minha carreira há 30 anos, nos 80’s. Nessa época o negócio Guerlain era gerido pelo irmão da minha avó que acreditava que as mulheres não deveriam trabalhar… Depois dos meus estudos eu procurava trabalho como perfumista júnior - e como mulher não era fácil! Eu me lembro que, quando eu era estagiária, me propunham estágios em avaliação e não em criação… Mas tenho que dizer que as coisas mudaram. Há muitas mulheres que trabalham agora na criação, talvez até demais! Na verdade, a escola de perfumes ensina muitas mulheres e menos homens… E portanto as equipas de criação nos negócios modernos de perfume são muito femininas. Claramente esse tipo de discriminação que eu experienciei já não existe.

Serguey Borisov: O que me espanta é que seus perfumes cheiram a algo clássico e moderno ao mesmo tempo. Eu nunca cheirei nenhuma dessas notas sintéticas “na moda” (e reconhecíveis) nos seus perfumes – eles são já clássicos no dia em que são lançados. Como você faz isso?

Patricia de Nicolai: Na indústria moderna de perfumaria, existem algumas novas moléculas que podem ser encontradas em quase todos os perfumes; como ‘dihidromircenol’, uma molécula de lavanda que é usada para compor montes de fragrâncias desportivas masculinas modernas. É muito popular mas eu não gosto muito! No que me diz respeito, admito que uso algumas das novas moléculas da moda tais como ‘Karanal’ ou ‘Amberketal’ porque elas trazem a força que eu procuro nas fragrâncias. Contudo, eu uso estas moléculas parcimoniosamente para criar um perfume poderoso e reconhecível que é agradável de usar, acima de tudo, sem ser opressivo! Além disso, minha assinatura de marca é também caracterizada pela minha utilização de essências naturais. De fato, e ao contrário de alguns perfumistas em grandes companhias, eu não estou limitada no que diz respeito a custos de produção das minhas fórmulas. São estas as vantagens quando se é um perfumista independente.
Eu tento sempre ser original, mas quero ser tradicionalmente original! Meus perfumes têm de ser chiques e elegantes. Não preciso chocar o mundo com minhas criações… Alguns perfumistas adoram chocar e estarem sempre passando dos limites. Mas não é esse o conceito de minha marca. Como eu disse, quero que meus perfumes sejam agradáveis de usar e não serem apenas ‘bons cheiros’. Meus perfumes têm de ser lembrados como é atualmente o caso de Patchouli Intense ou Kiss Me Tender; estas fragrâncias que não se assemelham com nenhumas outras. Este é um dos meus princípios essenciais como perfumista.
 
Serguey Borisov: No que diz respeito à gama de preços – seus perfumes são conhecidos pela sua alta qualidade e preços baixos. Adoro seu modelo de negócios mas não o compreendo. A procura de perfumes (como qualquer produto de luxo) se descreve pela lei de Veblen – quanto maios o preço, melhores são os números de vendas.

Patricia de Nicolai: Compreendo seu ponto de vista e estamos correntemente evoluindo segundo o chamado princípio da ‘lei de Veblen’. Contudo é preciso relembrar que quando nós começámos o projeto há 25 anos, quisemos ser acessíveis. Quisemos estabelecer um nome num mundo de perfumes que era totalmente desconhecido. Criámos uma marca que veio do nada. E precisámos ganhar a lealdade de nossos clientes propondo produtos acessíveis. Para além disso, tenho de dizer que algumas marcas exageram realmente seus preços. Não quero denunciar ninguém, mas oferecer um perfume muito caro com uma bela embalagem nem sempre significa que este perfume seja bom.

Serguey Borisov: Eu amo alguns de seus perfumes: Baladin, Odalisque, Vetyver, Le Temps d'une Fete. Acho que seu design mudou com o tempo (desde Parfums de Nicolai London Paris para Nicolai Createur de Parfum, e agora Nicolai Parfumeur Createur). Mas sua embalagem é bem modesta para uma marca francesa chique.

Patricia de Nicolai: A embalagem não era de fato um objetivo principal. Todos os nossos esforços foram devotados ao perfume em si. Para além disso, esta é a razão pela qual nossos preços são competitivos. Grandes marcas gastam milhões em marketing e embalagem, e por vezes não é o bling que torna uma fragrância original. Para mim, a fragrância está em primeiro lugar. Para além disso, nós somos uma equipa pequena, quase familiar, e por vezes é difícil coordenar tudo. Contudo, como eu disse, as coisas mudarão no nosso 25º aniversário. Estamos cada vez mais estabelecidos e somos apreciados em todo o mundo. Portanto, temos clientes mais exigentes, e temos de ser mais cuidadosos no que respeita ao marketing e comunicação, e especialmente neste mundo, onde a imagem é muito importante, com a Internet e as redes sociais, em que uma marca tem de ganhar a confiança dos seus consumidores todos os dias.
 
Serguey Borisov: Você criou perfumes para outras marcas, como Claude Marchale e sua marca MDCI Parfums. Pode falar-nos sobre isso?

Patricia de Nicolai: Claude Marchale de fato me solicitou para criar duas fragrâncias especiais. Eu aceitei sua proposta porque era muito ‘haut de gamme’, e quisemos ter perfumes de alta qualidade. Fiquei muito honrada de ter sido chamada por ele.
 
Serguey Borisov: Têm havido algumas especulações que dizem que você deveria ser a perfumista da Guerlain, e não Thierry Wasser. Aceitaria se a LVMH a convidasse para se juntar à Guerlain?

Patricia de Nicolai: Como você disse, isso são apenas ‘especulações’…e de qualquer forma, eu sei que a LVMH não me oferecerá esse emprego. Contudo, se a LVMH me propuser para me juntar à equipe de Thierry Wasser como consultora, bem, posso pensar nisso. Mas não como emprego a tempo inteiro. Eu tenho minha própria ‘Maison’ e estou muito contente com ela!
 
Serguey Borisov: Pensa lançar uma Coleção Exclusiva em paralelo com seus perfumes & colônias?

Patricia de Nicolai: Sim…Para celebrar nossos 25 anos, vamos mudar algumas coisas…mas eu não lhe posso dizer nada neste momento! Esta coleção ‘exclusiva’ vai compreender novas fragrâncias e nova embalagem.
 
Serguey Borisov: Alguns de seus perfumes têm mudado seu status para edições limitadas. Porquê? Será que devemos armazenar nossos favoritos dessa lista para o futuro caso resolva descontinuá-los?

Patricia de Nicolai: Nicolaï tem uma coleção muito grande de perfumes e tecnicamente, não conseguimos manter todas as nossas referências. Quando você tem uma fragrância que não vende bem, você precisa repensar sua estratégia de negócio. Por isso a fragrância é retirada da coleção normal e colocada como coleção online de ‘difusão limitada’ para agradar alguns de seus fãs. ‘Limitado’ significa que quando todo o stock acabar, desaparecerá. Contudo, não desaparecerá para sempre! Eu guardo sempre a fórmula e posso sempre recriar qualquer perfume por encomenda especial.
 
Serguey Borisov: Após se tornar Presidente da Osmothèque, está certamente muito ocupada. Como consegue ter tempo para criar fragrâncias? Usa algum dos perfumes clássicos que se encontram na Osmothèque como fonte de inspiração para seus perfumes?

Patricia de Nicolai: Desde o início, tenho sempre favorecido minhas criações e sempre dediquei minhas manhãs à criação. Tenho uma secretária perto de meu laboratório e outra na Osmothèque. Graças às comunicações modernas, posso comunicar com minha equipe em Versalhes enquanto estou no meu escritório em Paris. Contudo, tento ir à Osmothèque sempre que possível, principalmente durante a tarde.
Para o desenvolvimento do meu conhecimento pessoal, é claro que eu aprecio cheirar perfumes clássicos, mas nem sempre tenho tempo para pensar nas minhas próprias criações. Quando eu estou na Osmothèque, me dedico completamente a minha audiência. Quero que ELES se sinta entusiasmada pelos perfumes que eles descobrem. Contudo, consigo ter algum choque emocional ao cheirar algumas fragrâncias como o maravilhoso ‘Cuir de Russie’ de Chanel (1924), ‘Iris Gris’ lançado em 1947 por Jacques Fath ou ‘Je Reviens’ de Worth (1932).
 
Serguey Borisov: Existe uma enorme base de fãs dos perfumes vintage - pessoas que preferem as formulações vintage de Bandit, Shalimar, etc. Elas louvam a Osmothèque como o último lar dos perfumes verdadeiros. O que pensa que falta na perfumaria moderna quando compara as fragrâncias de hoje com os grandes perfumes do passado?

Patricia de Nicolai: As regulamentações, é claro! O que falta hoje em dia são alguns ingredientes ou fórmulas que estão agora totalmente proibidas por rígidas regulamentações. Algumas matérias primas usadas antes simplesmente não são permitidas hoje. O exemplo mais famoso é o almíscar. Outras matérias primas como o musgo de carvalho ou a bergamota ainda se podem usar mas epenas em formas específicas. Os perfumistas modernos trabalham com matérias primas altamente controladas por regulamentos e temos que ser muito cautelosos!
 
Cara Patricia, obrigado pelas suas perspicazes respostas!

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