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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Águas de Verão Damas - Companhia da Terra

 Rio de Janeiro - Foto de Marcos Estrella

Sábado, cai a noite quente.
Raras estrelas piscam entre nuvens densas, enquanto trovoadas abafadas  circundam a cidade.
É verão de  águas  que surgem repentinas e fortes carregando ladeira abaixo os cheiros de terra, folhas  e asfalto.
Ventania rodopiando entre galhos a provocar  o bailar frenéticos das árvores.
Fascina, inebria e amedronta antes de esmaecer no ritmo monótono sobre os telhados.
Águas de Verão Damas de Companhia da Terra  carrega esta força surpreendente  das tempestades de verão.


Abre-se verde, acidulada sob a têmpera do gálbano, suavizado por toques brandos de flores, talvez violetas, jacintos e narcisos.
Tênue,  névoa de canela paira sobre o ar no prenúncio da força das águas, que se derramarão sem transferir  umidade para a pele, apenas trazendo o aroma inebriante de especiarias enfumaçadas, do coentro envolvido pelo benjoim, incenso, myrra e civeta, resultando na fragrância que mescla ambiente urbano e campestre.
Repentino vislumbre aromático de grande metrópole rescende a  bancos de couro de carros novos, invadidos pela brisa que traz  o aroma das ruas após a chuva, e gradativamente adquire suavidade de seda.


Delicada, empoeirada, guardada em  baús, como preciosas lembranças de outrora, em cujas dobras se escondem íris, almíscar e âmbar.
Adquire  coloração doce  e quente  no rastro das especiarias, das madeiras semi encobertas, respingadas de patchuli e musgo.
Acento sofisticado, cálido e citadino que vem  entremeado pelo aroma dos campos, de troncos e raízes.


Sem dúvida merecedor do requinte duma première de gala no Teatro Municipal, talvez descontraída maratona pelos bares  restaurantes da Orla Bardot, ou  da rua das Pedras,  na Região dos Lagos do Rio de Janeiro.


Família Olfativa: Oriental Seco Amadeirado, 1976
Gênero: Feminino
Perfumista :Ricardo Penafiel Malta
Rastro: Intenso
Fixação: Muito Boa
Pirâmide Olfativa:
  • Topo - Gálbano,  alecrim, violeta
  • Coração -  Coentro, canela, couro, narciso, jacinto, orris
  • Base - Cipreste, benjoim styrax, civeta, patchuli, musgo, almíscar, âmbar branco


PS: Algumas notas de Águas de Verão Damas reviveram lembranças do descontinuado Mystere by Rochas, meu parfum signaturenos anos 80!

Arte irmã: Asfalto  (poesia lusitana - Cristina)

Tenho fome de poema
Sede de poesia
Neste tempo só há um verbo
Que me tira da melancolia
Rosto
Retratado
nume
Silvestres
Nudez do dia

No asfalto
Se perde
Nesta correria

Arte Irmã: Garota de Ipanema de Tom Jobim - Intérpretes: João Gilberto, Astrud Gilberto e Stan jetz



Água de Verão Cavalheiros - Companhia da Terra


No decorrer do ano 1974  Tom Jobim gravou em Los Angeles o  long play  Elis & Tom com  Elis Regina, talentosa intérprete da  belíssima composição - Águas de Março.
Anos revolucionários, reinado dos festivais de música, poetas e botequins, serestas,  ginga carioca, e de garotas que herdaram a Ipanema de Leila Diniz.
Como disse o poeta Drummond: -" Sem discurso nem requerimento, Leila Diniz soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão."
Década pródiga em renovação de conceitos e criatividade  artística...


Rio de Janeiro era cenário fecundo para todas artes e, na serrana e bela cidade  Petrópolis, Ricardo Penafiel Malta, cujos pais mantinham laços de amizade com Jobim e Elis Regina exercitava sua paixão pelas artes.
Das  andanças pela Europa Penafiel trouxe fórmulas e conhecimento sobre o preparo de perfumes, adaptados para criar uma fragrância pessoal utilizando bioativos nacionais e importados. Da terra natal absorveu musicalidade, cor e aromas .


Assim, homenageando a música Águas de Março surgiu Águas de Verão, perfume masculino, carro chefe da marcaCompanhia da Terra fundada no ano em curso, 1976.
Composição de evolução complexa, acompanhando o impressivo estilo aromático  peculiar das décadas 70 e 80, interage ricamente com a pele, na ambivalência de tons quentes e frios.
Inicialmente desprende aroma cálido, doce, especiado e animalic mantendo ao fundo certo frescor orvalhado como um bouquetatado por  feixe de cardamomo, coentro, cítricos e enfeitado por ramos de alfazema, toques de gerânios.

 Vagarosamente estas notas ressaltam o acorde de couro macio, enfumaçado e picante expressando   doçura de canela, cravo e baunilha.
Luvas de couro perfumadas, um clássico da perfumaria!
Entremeando o acento leve, ainda presente,  das frutas cítricas e ervas verdes iniciais insinuam-se acento terrosos, herbáceos e úmidos de patchuli e vetiver.
Compartilham suas características com madeiras enfumaçadas na queima da mirra, e na caliência do benjoim, devidamente embalados pelo almiscar ambarado de hibiscus.


Em evolução lenta e cadenciada  nos surpreende com passos inesperados surgidos no calor do corpo, ou  nas  lufadas de vento que recebemos, tal qual  diferentes arranjos numa roda de viola, onde  músicos habilidosos renovam antigos chorinhos e sambas.
De sillage impressiva e fixação sólida, o líquido âmbar encerrado em frasco vintage revela na cor e aroma a procedência natural de alguns óleos, que caracterizam  Águas de Verão de Companhia da Terra como fragrância atemporal  para se usar de janeiro a dezembro.
Nas águas de março, nos ventos de julho, no colorido de outubro...pois  muito tempo depois de aplicado deixa resíduos verdes e frescos das folhas, das raízes, como se transmutasse de estação, mês a mês.


Família Olfativa: Fougere amadeirado, 1976
Gênero: Masculino
Perfumista: Ricardo Penafiel Malta
Rastro: Intenso
Fixação: Ótima
Notas Olfativas: Cítricos, coentro, cardamomo, alfazema, rosa, jasmim, ylang-ylang, canela, cravo, baunilha, vetiver, patchuli, mirra, benjoim, âmbar branco, couro, cedro.


Vídeo: Águas de Março - Elis regina e Tom  Jobim - Gravação do álbum Elis e Tom


Imagens: Fotos de Elisabeth Casagrande; imagens gentilmente cedidas por Companhia da Terra; Fazenda Marambaia - Petrópolis/ Rio de Janeiro/Brasil no paisagismo de Burle Marx -  projeto em 1949.