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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Hermes 24 Faubourg

por: Elena Vosnaki

Este é o terceiro Artigo da nova Série do Fragrantica: Às Compras No Meu Armário de Perfumes, em que os nossos escritores exploram uma determinada fragrâncias que já possuem por algum tempo, mas raramente a usam. Seria possível se reapaixonar por uma velha fragrância favorita do passado e “se redescobrir” apaixonado novamente? Será que as experiências do passado mudaram as preferências de nossos escritores com o avançar dos tempos? Junte-se a nós nesta viagem e compartilhe suas experiências em revisitar velhos aromas favoritos. 
Semelhante a minha amiga Jodi Battershell que desencostou seu Jardins de Bagatelle de Guerlain para a Série do Fragrantica: Às Compras No Meu Armário de Perfumes, assim também como a Bella para o Samsara, de certa forma tenho negligenciado parte da minha vasta coleção. Em uma breve pausa, ouço grilos cantarolar! "Sim, e quem se importaria em eu negligenciar algo?" Devemos considerar que de entre vários perfumes que temos em nossos armários, existem aqueles que são esqueletos de armário, os quais guardamos apenas para uma borrifada aqui outra acolá, ou para o ressurgimento de alguma lembrança passada, sem o intuito de causar espantos; isso é um mistério, poder guardá-los e não usá-los definitivamente! Mesmo investigando poderíamos não encontrar certas respostas para estas especulações. Contudo, em tempos de vida econômica, tal atitude é uma sabedoria. 
Foto da campanha em 2012 na Ilha de Egina, na Grécia, aos pés de uma oliveira antiga

24 Faubourg de Hermès é a fragrância a qual negligenciei por muito tempo. O motivo? Mesmo que eu goste muito dela e reconheça que é uma fragrância realisticamente linda (ou seja, o seu mérito artístico supera qualquer gosto pessoal), sempre a vi como sendo um composto-de-uma-burguesia-aspirante.
Por favor, não me interpretem mal.
Hermès se destaca como talvez uma das Maisons que têm as garrafas francesas mais luxuosas e chiques, e eu amo tudo e qualquer coisa que eles criam, seja perfume ou até mesmo acessório; eles possuem alta qualidade e bom gosto. O fato de eles terem resistido a agressivos take-overs (mudanças bruscas de controle societário de uma determinada empresa) conseguiram se manter como uma Maison que preserva as coisas luxuosas deste meio perfumístico. Sem fugir do fato que a Maison minimizou significativamente o termo "luxuoso" de suas fragrâncias, tornando-se tal percepção mais escassa e menos exibicionista, como no passado (isso se deve ao perfumista da Casa, Jean Claude Ellena, cuja escassez de estilo definiu uma nova época, tanto para a Casa quanto para a perfumaria no geral). 
24, Faubourg vem de uma era anterior, oiço você lamentar.
Sim, é verdade. E continua cheirando como antes!
Nomeado por conta da famosa Rua de Faubourg Saint-Honoré, no distrito de 8eme em Paris, onde fica a sede da luxuosa casa familiar Dumas, 24 Faubourg sempre esteve submerso no luxo desde sempre; considerando a mansão a qual nascera.
Como muitos amantes do perfume eu não sou de forma alguma avessa ao luxo. Para mim, luxo e luxuria representam um pensamento interessante; luxuria é o nome latinopara: cobiça, um dos 7 pecados capitais. E os amantes do luxo, fazem cobiças sobre os objetos de seu próprio desejo?! O desejo é provocado pela falta, e a falta cria o “eros/concupiscência”, ou seja, o desejo de preencher a falta, o ideal platônico de unir duas partes que, de uma vez só, formam um todo. Sim, é um conceito metafórico, contudo, explica nossas andanças constantes por Marcas das quais ainda não conhecemos!
Em rebeldia contra a classe social e talvez devido ao anti-esnobismo da minha parte (ou é esnobismo literalmente em sentido inverso, às vezes me questiono sobre...), abstive-me da exposição ostensiva consciente da insígnia de riqueza, abracei aos mais humildes e aos menores propositalmente, idem. Olhem só o conjunto da obra desta fragrância, não é fabulosa?! Quem precisa de logotipos ou parafernálias, se é a qualidade nas coisas que importa?! O axioma de Coco Chanel sempre me guiou. Seria muito deselegante pendurar um diamante de 50 quilates no pescoço deles, como também um cheque gordo. Então, por que entrar na luxuria capitalista? Para querer mais e exibir-se mais?
Tenho sido muito feliz usando meus perfumes com notas de Incenso esotérico ou notas lenhosas cotidianamente. As pessoas sequer atribuem o aroma que emana de mim como "perfume", mesmo quando elas gostam dele. Não é como um Coco Mademoiselle, "hey, você está usando tal perfume, né?!". A sensação que tenho é como se eu tivesse deixado algo de vésperas ou mesmo que muito tempo numa biblioteca, o que não é incomum, e nos leva a imaginar algo sobre isso. Também sou amante dos florais brancos e dos orientais picantes, embora estes tenham mais dificuldade em passar sob o radar dos "perfumes acessíveis". Não que isso realmente me incomode, mas as pessoas em volta tendem a se incomodarem. Afinal de contas, muitas vezes um aroma potente provoca uma conversa interessante. Pessoas que se identificam por um determinado aroma, são unidas por um mesmo fôlego, existe aí uma poderosa conexão
.
24 Faubourg tem todos os traços aspiracionais de um perfume para a burguesia, não se enganem sobre isso. Um convite à luxúria para coisas maiores e melhores. Ele inspira uma sensação de gula, muito parecido com os contornos precisos de seu criador, Maurice Roucel, que por sinal é bem sugestivo em suas criações. O que escritores medievais da busca pelo prazer de Carmina Burana achariam disto?!
Na minha concepção, ele também é muito parecido com o lindo Floral OrientalBoucheron Pour Femme, isto é, mais é mais. Que Mies van der Rohe não me “leia”. A era de Ellena ainda não gerou seus memoráveis frutos espartanos.
O aroma de 24 Faubourg se constitui em um floral branco, inegavelmente floral, encharcado em tons de mel para ser exata, e não somente um “floral" em si. Definitivamente um floral para acabar com todos os outros florais, e ainda assim não só um floral em específico. Em seu bem elaborado buquê, que considero um tanto bizantino, posso detectar Resinas, Bálsamos, Frutas (Pêssegos carnudos e Frutas Cítricas picantes), uma fina e suave textura de Orris, algumas Madeiras e algo intangível, meio que doloroso para captar... Parece-me que tudo está posto sobre a banca em uma cozinha (a mesma sensação sinto no Boucheron) e ainda não estão totalmente evoluídos. Também sinto perfeitamente um poderoso calor exuberante e satisfatório, que ousa dizer, sim eu sou RICA emanando de sua encantadora garrafa em forma de um lenço de seda Carrés muito comuns e famosos no mundo inteiro, lançados pela Casa Dumas.
Embora a Flor de Laranjeira, o Jasmim (um pouco menos abundante nesta etapa) e aGardênia serem um tanto natural, a experiência que sinto é como se um fio de seda fosse tecido por algum inseto exótico com belas asas em uma estufa tropical.
Uma aura Âmbar no perfume faz alusão ao sol e é bastante evidente nas propagandas publicitárias por refletir um tom dourado. Já escrevi antes sobre as"notas solares" serem um aspecto para o calor e luminosidade, embora este perfume não seja especialmente um salicilato-concentrado, ele apresenta um cheiro ultra confortável e jovial frente a uma reminiscência do toque do sol. 
24 Faubourg fica perfeito sobre lenços de seda em cores vivas para o pescoço, usados para iluminar os primeiros dias da primavera, sendo eles coloridos não haverá problemas com manchas após algumas borrifadas. Seu aroma é gracioso, bem entrelaçado, sólido em sua forma de ser, com um brilho que irradia aos olhos, e para realmente deixar se sentir silken (macio e brilhoso como a seda)!
Ele na concentração Extrait de Parfum tem o líquido mais viçoso e com um toque de conhaque em sua cor do que o próprio Eau de Parfum que possuo. Já o Eau de Toilette, apesar de ser mais diluído, ainda é bastante condensado e sólido. Longe da média do mercado tradicional/regular de sua época de lançamento, possivelmente ele foi um remanescente no ano em que fora lançado, isso no início de 1990.
O desenho da garrafa não tem coincidentemente a forma de um Lenço Carré de seda, com uma bela sobreposição de desenho gráfico que se assemelha ao trabalho realizado para os famosos lenços chiques da Hermès. O mecanismo da tampa e do spray de ouro fosco dele é classe pura. As edições limitadas são igualmente belas, sempre reprisando um motivo de relançamento para a Maison.

Resumindo:
Tornar a usá-lo me fez sentir como se eu tivesse estupidamente cometido uma grande gafe, deixando-o de lado. Por que eu o esqueci por um momento, enquanto estava usando um conceito aproximado e comparável para o Boucheron Pour Femme? Talvez eu estivesse cega equiparando um Hermès a outra fragrância bem mais conhecida e acessível, em minha jornada perfumística. Claramente um erro da minha parte que agora estou corrigido.
Então, caros leitores, nós adoraríamos ler sobre alguma história de vocês. Vocês têm memórias especiais ligadas ao 24 Faubourg de Hermès?! Vocês tem uma situação semelhante com uma fragrância que recentemente foi redescoberta?! Ou vocês acham que jamais vão se reaproximar de algo que deixaram no passado?! Gostaríamos muito de saber/ler de vocês nos comentários abaixo!

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